155 dias depois, onde estamos nós? – COVID-19

Estávamos em janeiro quando começaram a surgir as primeiras notícias de um potencial novo vírus, semelhante ao SARS-CoV-1 ou MERS, com origem em Hubei, mais precisamente na cidade de Wuhan, com 11 milhões de habitantes. O resto, é história.

A evolução da pandemia em Portugal teve o seu início a 2 de março, quando a Direção-Geral da Saúde (DGS) apresentou o primeiro boletim epidemiológico com o reporte dos 2 primeiros casos efetivamente detetados em território nacional e, neste caso, importados. A 19 de março foi declarado o estado de emergência em Portugal, dia em que se atingiram 785 casos. A 2 e 18 de abril foram decretados prolongamentos do estado emergência, quando o total de casos se encontrava 9 034 e 19 685 respetivamente. Estamos agora com 51 681 casos, sendo que o levantamento das medidas restritivas é quase total, mantendo-se, como é claro, todas as medidas de prevenção, distanciamento social, entre outras. A implementação do estado de emergência em Portugal foi essencial para dotar o país, o sistema de saúde e a população de ferramentas e medidas ponderadas para combater o problema que se debateu no país. Tal poderia e deveria ter sido feito antes, aquando da observação da situação na sua fase inicial noutros países, mas Portugal não foi de todo o único país a olhar para o problema e perspetivar potenciais consequências bem mais ligeiras do que aquilo que realmente se veio a verificar.

As consequências da infeção por COVID-19 vão muito além da recuperação/óbito. As potenciais sequelas, muitas delas que se tornam crónicas, é algo muitas vezes desvalorizado pela opinião pública que se foca apenas nos números de recuperados e óbitos que são veiculados. É também verdade que Portugal, pela DGS, se tem demonstrado demasiado restrito no que à divulgação de dados diz respeito – mas será abordada esta temática mais à frente.

Internados

Sendo este parâmetro um dos mais importantes relativamente às potenciais consequências provocadas por esta infeção, principalmente na potencial falta de resposta do sistema de saúde, seja em recursos humanos ou equipamento necessário, é essencial perceber a evolução da pandemia olhando para estes dados com a atenção necessária. O pico de doentes internados devido à COVID-19 ocorreu a 16 de abril, com um total de 1 302 sendo que o valor mais elevado em cuidados intensivos foi de 271 a 7 de abril. A partir desse momento foi possível verificar uma redução consistente e gradual, anulada apenas pela evolução negativa que se verificou em Lisboa e Vale do Tejo e ainda no Alentejo a partir de final de maio, originando um agravamento da situação em muitos hospitais da grande Lisboa que chegaram a apresentar uma ocupação a 100% das unidades de cuidados intensivos.

Atualmente estamos com 401 internados, 44 destes em Unidade de Cuidados Intensivos. A situação alterou-se nos últimos dias, após uma constante diminuição dos internados, devido a situações que já se esperavam estar resolvidas: novos surtos em lares. Depois de inúmeros surtos nas mais diversas regiões de Portugal e com o foco em lares, era expectável que todas as medidas de prevenção fossem realmente aplicadas e respeitadas. O surgimento destes surtos demonstram falhas que se tornam particularmente preocupante devido à população afetada, aquela que sofre uma letalidade superior como será possível verificar abaixo.

Óbitos

Qualquer óbito, associado ou não à COVID-19, é sempre de lamentar. A mortalidade em Portugal está a atingir valores elevados, quando olhamos para o cômputo geral, sendo que se torna difícil avaliar as verdadeiras razões para tal estar a acontecer. A mortalidade associada à COVID-19 não explica tudo e é necessário uma avaliação, por parte das autoridades de saúde, da identificação das causas que levaram a este aumento bem acima da média.

É importante que não se caia na tão propalada teoria de que “todos os esforços foram direcionados para a COVID-19 esquecendo as restantes patologias, cancelando consultas e cirurgias”. É verdade que a quantidade de serviços de saúde prestados para a população diminuiu mas a alternativa era uma e, por sinal, bem mais grave – não direcionar esforços para impedir o contágio pelo SARS-CoV-2 e acabar com situações semelhantes a Itália ou Espanha, onde foi atingida a lotação máxima dos hospitais, equipamentos, profissionais de saúde e, com isso, originando uma situação onde provavelmente milhares de óbitos eram evitáveis se tivesse existido o, já tão conhecido e falado, achatamento da curva de infeções. E atenção, a mortalidade superior por razões ainda por apurar não seria menor caso a escolha tivesse recaído pela última hipótese. Este, apesar de mau, foi a escolha que permitiu o melhor cenário dentro de todos os maus cenários que são possíveis verificar a nível mundial. Ver quadro comparativo abaixo.

Comunicação à população

Desde o início que a DGS tem pecado na qualidade da informação diariamente veiculada relativamente à evolução da pandemia em Portugal. A disponibilização de dados descaracterizados e mais específicos, para utilização a nível científico, foi e continua extremamente dificultada e com uma periodicidade semanal. Já num parâmetro extremamente importante para a população, a divulgação da distribuição dos casos por concelho, a situação deu um passo atrás com o abandono da atualização diária para uma atualização semanal, deixando a população num total desconhecimento da evolução ao longo de 7 dias.

Mas a falta de comunicação dos dados por concelho não é caso único. Há muito por onde melhorar:

  • Distribuição dos casos ativos – Além de não existir, no relatório diário da situação epidemiológica, o valor de casos ativos a cada dia, não existe também a distribuição de onde se encontram estes casos. Desta forma, foi necessário no COVID-19 by Crossroads desenvolver uma estimativa que permita à população ter uma ideia, ainda que geral e limitada, à situação em cada concelho ou região do país.
  • Distribuição dos óbitos – De forma semelhante ao ponto anterior, a única informação existente relativamente aos óbitos prende-se com a região onde estas aconteceram, em qualquer informação detalhada a nível de concelho.
  • Distribuição dos internados – Não existe qualquer informação além dos valores gerais para o país. Não existem, também, informações relativamente à proveniência/outcome dos casos em que foi necessário internamento.
  • Hiato entre origem dos sintomas/deteção do caso – Esta é outra informação que permite avaliar o risco existente no país, sendo que a existência destes dados permitiram aferir sobre a rapidez com que os casos são detetados.

Outro aspeto que é necessário para uma correta informação do público, é a criação de um Mapa de Risco. Foi redigido um artigo/opinião, para o Público, que pode ser consultado aqui e que pretende alertar para a necessidade desta informação que é fulcral para a população.

É fundamental que as autoridades governamentais e de saúde preparem o próximo outono/inverno da melhor maneira. O tempo até lá começa a escassear e, tendo em conta o fluxo de pessoas que começa a chegar a Portugal, torna-se relevante um planeamento executado tendo em conta todos os aspetos necessários para garantir que a situação não se agrave e saia do controlo. São já muitos os exemplos de outros países que começam a tomar, novamente, fortes medidas de restrição após um incremento de casos acentuado. Nada nos garante que tal não vá acontecer em Portugal, sendo fundamental a adoção de comportamentos corretos e concordantes com as medidas implementadas pelas autoridades de saúde. E, na dúvida, tomar sempre a ação mais conservadora.

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