SARS-CoV 2, conhecido também por Novo Coronavírus 2019 e causador da COVID-19, Doença do Coronavírus 19 (COrona VIrus Desease).

Esta frase introdutória tem como objetivo colocar em cima da mesa todas as nomenclaturas que são utilizadas, por vezes erradamente, na comunicação social e que, sem dúvida, poderá deixar muitos de nós sem certezas quanto ao que está efectivamente a ser falado.

O objetivo deste artigo passa por tentar desmistificar o assunto relativo aos testes para a COVID-19. Será abordado um pouco o que está a ser feito em Portugal, os diferentes testes existentes, um breve fundamento teórico que suporta os mesmos e ainda qual poderá ser a “solução” para o futuro incerto em que vivemos. A organização do artigo será a seguinte:

  • Introdução
  • Quem pode realizar testes em Portugal?
  • Como é realizada a colheita da amostra?
  • Quais os tipos de teste que existem?
    • Teste PCR – Deteção de ácido nucleico do SARS-CoV2
    • Teste serológico – Deteção de anticorpos (Testes rápidos)
  • Como podem os testes contribuir para o regresso à vida normal?

Quem pode realizar testes em Portugal?

Publicado a 23 de Março, a Direção Geral de Saúde (DGS) emitiu uma Orientação relativa ao diagnóstico laboratorial da COVID-19. Segundo esta orientação, “todos os casos suspeitos de infeção pelo Novo Coronavírus devem ser submetidos a diagnóstico laboratorial”. Este tem de ser realizado num laboratório hospitalar da Rede Portuguesa de Laboratórios, no Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA) e ainda na rede complementar de laboratórios privados. De realçar que a lista de laboratórios aprovados para o diagnóstico da COVID-19 pode aumentar, sendo que a sua homologação está pendente do envio para o (INSA) de todos os casos positivos e ainda dos 5 primeiros casos negativos de forma a confirmar os resultados e assim tornar oficiais os testes realizados nesses novos locais.

Como é realizada a colheita da amostra?

Dependendo do teste que se queira realizar, as amostras são recolhidas de diferente forma. No caso de zaragatoas para o teste de deteção de ácido nucleico, é necessário recolher amostras do trato respiratório inferior sendo esta indicação mais relevante nos doentes com doença mais grave. A recolha é feita por aspiração endotraqueal ou lavado bronco-alveolar. Em recolhas feitas no trato respiratório superior, devem ser duplicadas e em diferentes zonas. Deve ser dada prioridade à colheita na zona da nasofaringe quando não for possível recolher também da orofaringe.

Para efeitos de outros estudos complementares, podem ser recolhidas outras amostras incluindo soro, de forma a testar para a deteção de anticorpos que falaremos mais à frente. As recolhas devem ser feitas em duplicado, na fase aguda e de convalescença (2-4 semanas após a fase aguda).

O que é uma zaragatoa? É um simples instrumento clínico semelhante a um cotonete onde a sua extremidade de recolha é composta por algodão hidrófilo, sendo esta zona que faz a colheita do exsudado.

De realçar que além da zaragatoa é necessário o recipiente onde a amostra será colocada e ainda o meio de transporte para o vírus (2/3 ml de uma solução).

Imagem: Sistema Digestivo - Sites Google
Zaragatoa

Quais os tipos de teste existentes?

Como já abordado mais acima, existem os testes de deteção de ácidos nucleicos do SARS-CoV2 e ainda os testes rápidos de deteção de anticorpos. A abordagem seguinte tentará explicar em que consiste cada um deles.

  • Teste de deteção de ácidos nucleicos do SARS-CoV2 – qRT-PCR

Recomendados pela Organização Mundial de Saúde, estes são os testes feitos em Portugal que todos nós ouvimos diariamente falar. Qualquer diagnóstico positivo ou negativo teve a sua origem neste teste. Como funciona então este método de despiste?

qRT-PCR – Olhando para o nome do método, este é uma Reação de Polimerase em Cadeia Quantitativa em Tempo Real. Cada inicial corresponde assim à abreviatura deste método. O tempo médio do teste é de cerca de 6 horas. Como se processa a amostra?

Através de uma enzima transcriptase reversa, ou seja, uma enzima que permite sintetizar uma cadeia de DNA a partir de uma cadeia de RNA viral. O DNA originado pela reação é utilizado numa reação de PCR onde será multiplicado um certo número de vezes de forma a que, através deste método e com o uso de um corante fluorescente que se liga ao DNA alvo (originado pelo RNA viral através da enzima transcriptase reversa e amplificado com o PCR) permite assim detetar e quantificar a presença e quantidade de DNA viral.

Ainda que seja extremamente sensível, o processamento de grandes quantidades de amostras, kits comprometidos e ainda amostras incorretas ou realizadas numa fase demasiado precoce da infeção, poderá levar a resultados incorretos, daí a repetição que é muitas vezes realizada.

A molécula que contém a informação genética no SARS-CoV2 é RNA.

Quais as principais diferenças?

  • DNA contém cadeia dupla enquanto o RNA uma cadeia simples
  • O açúcar do DNA é uma desoxirribose e no RNA uma ribose
  • As bases azotados do DNA são Adenina, Guanina, Citosina e Timina
  • No RNA, a base azotada Timina é substituída pelo Uracilo

Os testes rápidos assemelham-se ao da imagem acima, sendo então detetados os anticorpos IgM ou IgG ou ainda ambos dependendo da fase da infeção em que o doente esteja.

Estes são testes que permitem obter resultados num espaço de 60 minutos. São neste momento utilizados como complementaridade ao teste por qRT-PCR.

Apesar da rapidez ser a sua principal vantagem, a grande probabilidade de um resultado “falso negativo” na presença de pequena quantidade de anticorpos é ainda um fator que não permite total confiança na realização do teste.

  • Teste serológico para deteção de anticorpos – Deteção de IgM e IgG específicas do SARS-CoV2

Este método tem como objetivo detetar a presença de proteínas (anticorpos) contra o SARS-CoV2, ou seja, IgM e IgG. Mas o que são as IgM e IgG. Cada uma destas é uma imunoglobulina – no nome podemos encontrar imuno – sendo estes anticorpos produzidos pelo organismo aquando do contacto com um microrganismo invasor. O seu objetivo passa, assim, por eliminar, neste caso, o vírus.

Qual é a diferença entre IgM e IgG – no caso da imunoglobulina M (IgM), este é o primeiro anticorpo a ser produzido numa infeção, sendo assim caraterizado como um marcador de fase aguda. A imunoglobulina G (IgG) é produzida numa fase mais tardia e, dessa forma, mais específico para o microrganismo invasor que provocou a infeção. É também esta IgG que se quer promover a produção aquando da toma de uma vacina, originando assim anticorpos específicos para o SARS-CoV2.

Voltando ao teste, este pode ser realizado de forma rápida e no local, utilizando amostra de sangue ou soro da pessoa suspeita de infeção, sendo que devem ser recolhidas 2 amostras em dois períodos diferentes. Não entrando em grandes pormenores, a engenharia científica por detrás deste método é em tudo semelhante a um teste de gravidez. O objetivo é que se forme um complexo antigénio-anticorpo, confirmando ou não a presença dos anticorpos em estudo.

Estes testes rápidos de deteção de anticorpos possuem desvantagens devido à sua baixa sensibilidade e especificidade dos mesmos. Isto é fundamental no período em que a presença de anticorpos é ainda residual, sendo que podem originar falsos negativos em quantidade. Tal segurança é conseguida apenas com os testes imunoenzimáticos tradicionais, que por terem um tempo de incubação mais longo, permitem atingir os níveis de confiança desejados. Informar que estes testes últimos testes estão já a ser realizados em Portugal.

Como podem os testes contribuir para o regresso à vida normal?

A utilização de testes rápidos numa fase mais adiantada da pandemia permitirá verificar a presença de IgG (anticorpos específicos para o SARS-CoV2) e, nos casos em que tal se mostre positivo, existe imunidade adquirida por essas pessoas.

A imunidade adquirida significa que esta pessoa não irá ser infetada de novo por este vírus, pelo que pode naturalmente regressar à vida habitual. Porque não é ameaça para quem não foi infetado? Esta pessoa não irá expelir partículas virais já que não as produz, sendo que a manutenção dos hábitos de higiene serão fundamentais para que pessoas imunes não possam ser um “meio” de transmissão para pessoas até agora imunodeprimidas quanto ao que o SARS-CoV2 diz respeito.

O estudo de imunidade adquirida será assim fundamental para que uma parte significativa da população possa voltar ao ativo, sendo de esperar que estas pessoas possam ter uma certificação de imunidade adquirida de forma a estarem aptos para uma livre circulação.

Numa nota adicional, o total de casos suspeitos em Portugal é um número cumulativo sendo que este inclui os casos testados positivamente, negativamente e ainda os que aguardam resultado. Este valor não revela o número de testes que foram realizados já que existem duplicações de testes quando necessário.

Se este artigo, apesar de longo, tiver esclarecido as suas dúvidas, considere partilhar de forma a fomentar a literacia em relação a este assunto.

Testes PCR vs Testes Rápidos – A realidade em Portugal e o futuro
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