“Vai ficar tudo bem”. Não, não vai ficar tudo bem! Não vai ficar tudo bem se continuarmos com o mesmo comportamento de até aqui. A ausência de aulas, o teletrabalho, a vigilância ativa ou passiva não são férias. Não são uma autorização para fazermos coisas para as quais não tínhamos tempo antes. Não são um atestado para à praia ir ou colocar o nosso treino físico em dia, invadindo espaços encerrados pelas autoridades. É difícil ser cumpridor num mundo de incumpridores, onde cada um de nós procura escapar às obrigações assim que uma réplica de oportunidade surge no horizonte. Acusámos o governo por uma inércia inicial na resposta à pandemia que todos adivinhavam. Criticámos a forma leviana como as autoridades de saúde trataram a descoberta e previsível chegada ao nosso canto à beira mar plantado deste vírus. 

Mas, o que fizemos nós quando finalmente medidas foram tomadas? Pela noite, aplaudimos os profissionais de saúde num ato de reconhecimento para as redes sociais. Pela manhã, decidimos correr com os amigos, ir buscar pão e beber o café da praxe, ir visitar os nossos pais ou avós. Decidimos sair quando nos ordenaram ficar em casa. Fomos teimosos porque somos novos e resistentes. Fomos teimosos porque somos já de avançada idade e tudo o que se está a passar é um exagero da comunicação social. Fomos teimosos porque “só vou para casa se eu quiser”.

Hoje, são já cento e quarenta vidas que não mais voltarão. Avós, pais, filhos e netos que nunca mais estarão na presença dos seus entes queridos. Vidas que se perderam pela inação, ou ação a mais de todos nós, que temos o dever cívico de ficar em casa. Temos uma oportunidade única de não mais passar infindáveis horas no trânsito. De dizermos “presente” na vida dos nossos filhos quando muitas vezes o trabalho é um impedimento. Uma oportunidade de sabermos estar connosco próprios. Para outros, a obrigação profissional não o permite. São concidadãos que estão na linha da frente ao combate de um adversário invisível, mas sempre presente. E se conseguirem voltar a casa no final do dia, são uns privilegiados. Outros, só as novas tecnologias permitem ver quem mais amam através de um pequeno ecrã.

Hoje, temos de ser um só. Temos de passar das palavras aos atos. Está nas nossas mãos proteger-nos a nós, aos nossos, aos outros. Porque se é verdade que tantas vidas ainda se irão perder, só nós temos a capacidade de travar esta situação.

Fiquemos no conforto de casa, junto dos nossos e tenhamos orgulho em quem está a lutar pela cura para esta doença e a cuidar de nós. Batam palmas, cantem o hino, o que quiserem. Mas no minuto seguinte, ajam em consonância! E que recordemos sempre esta situação no momento de imunizarmos os nossos. Porque se hoje ansiamos por uma vacina que nos livre deste mal, muitas outras existem para que outros males não voltem.

E sim, no final de tudo, “Vai ficar tudo bem”. Com quem partilharemos esse momento depende, agora, da nossa ação.

Ao povo Português, uma carta aberta
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